2019: o ano da retomada econômica

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Em um espaço muito curto de tempo, o Brasil saiu da melhor posição alcançada no ranking de economias globais para mergulhar em uma das piores crises da sua história. Os dois extremos aconteceram em um prazo de cinco anos, que vai de 2011, quando o país se tornou a sexta maior economia do mundo, a 2016, segundo ano de queda acentuada do Produto Interno Bruto (PIB).

O período entre esses dois extremos foi marcado, ainda, pela realização de dois grandes eventos esportivos mundiais, pela divulgação de escândalos de corrupção, por protestos inflamados e por um impeachment presidencial. Em um cenário conturbado como esse, resultados econômicos pífios e o acirramento político observado na disputa eleitoral de 2018 não surpreendem.

Independentemente da preferência política, os brasileiros foram às urnas com a expectativa da mudança. Cabe, agora, ao presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), conduzir o país no processo, ainda muito lento, de saída da crise. Depois de vencido o período econômico mais crítico, as perspectivas para 2019 são positivas, mas dependem da correção dos rumos.

Acenos de recuperação em meio a transição de governo
A vitória de Jair Bolsonaro teve reflexo econômico imediato. Ainda que baseados mais nas expectativas dos investidores do que em medidas concretas, a cotação do dólar e as negociações na Bolsa traduzem as perspectivas que estão sendo traçadas para 2019.

Na segunda-feira, um dia depois do resultado das eleições, o mercado financeiro abriu com o dólar em queda de mais de 1%, chegando a R$ 3,60, e o Ibovespa alcançou, na abertura, 89.700 pontos, uma alta de mais de 3% e que só não se sustentou ao longo do dia por uma razão: os investidores estavam realizando os lucros obtidos no período recente. O mês de outubro encerrou com alta de 10% no Ibovespa e queda de quase 8% no dólar.

O que os investidores sinalizam com essa movimentação é que têm confiança de que o novo governo conseguirá gerar resultados econômicos positivos. Do ponto de vista conjuntural, o crescimento tem tudo para se concretizar, embora as dificuldades sejam flagrantes. É o que apontam as análises de mercado.

Na sua carta de conjuntura mais recente (de setembro de 2018), o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) projeta o crescimento da economia em 1,6% para este ano e em 2,9% para 2019. É um desempenho louvável para uma economia que sofreu uma queda de mais de 7% no biênio 2015-2016. No ano passado, o crescimento foi de 1%, uma alta que, embora modesta, é bastante significativa.

Para o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, esse é um sinal bastante claro de que o presidente Temer acertou na parte econômica. “O que Temer fez ao longo dos últimos dois anos, vai avançar lá na frente.” Vale ressalta que o cenário herdado por ele era o pior possível. “Dilma destruiu tanto a política fiscal quanto a monetária. Fica difícil, nesse contexto, tirar o país rapidamente da recessão.”

Como efeito das medidas adotadas nos últimos dois anos, o Brasil avançou 16 posições no ranking global de competitividade, o Doing Business, elaborado pelo Banco Mundial. Com as reformas realizadas a partir de 2016, o país passou da 125ª posição para a colocação 109.

Temer poderia ter avançado mais e até aprovado a reforma da previdência se não fosse o escândalo da JBS, pondera o economista. “Ele foi muito bom para a economia, mas, ao mesmo tempo, se destruiu.”

Sérgio Vale trabalha com um cenário de crescimento de 1,6% do PIB neste ano e 2,2% para 2019. Mas o resultado para o próximo ano está condicionado às reformas que ainda não foram feitas, e a prioritária é a da previdência.

“A recuperação é lenta, sim, e nem poderia ser diferente porque o abismo em que a economia brasileira caiu foi profundo”, avalia o editor-chefe da revista Amanhã, Eugênio Esber. “Alento, mesmo só poderemos esperar em 2019 e principalmente em 2020, a depender da capacidade do novo governo de consertar as contas públicas – entenda-se, reformar as regras da Previdência Social”, acrescenta.

Eugênio Esber -Foto: Claiton Dornelles/BBC Fotografias

Para manter o otimismo dos investidores, evidenciados durante a campanha eleitoral, o foco da gestão Bolsonaro deve ser na área fiscal, destaca o economista e jornalista Gilberto Simões Pires. “A reforma da Previdência é o caminho para começar o desmantelamento do escombro chamado despesa pública.” O desafio é gigantesco. Pires reforça que em conjunto com a questão previdenciária, o governo terá que reformar o sistema tributário e elevar a taxa de investimento.

Reforma da previdência, a grande aposta do ano
A perspectiva de alta de 2,2% para o PIB de 2019 é um meio-termo entre aprovar ou não a reforma da previdência, detalha Vale. Caso a pauta seja aprovada nos primeiros meses de governo, “teríamos um segundo semestre bem forte”. Resolver a questão previdenciária é o desafio primordial do novo governo.

O economista reforça que, no atual cenário, não há margem para fazer pequenas mudanças na previdência. A reforma tem que ser agressiva, já contemplando quem está no sistema. É uma pauta extremamente impopular em que o embate é inevitável. Por isso, a equipe de Bolsonaro vai ter que adotar uma postura conciliadora, de negociação com o Congresso.

Gilberto Simões Pires – Arquivo pessoal

Ainda é prematuro projetar como os novos parlamentares vão reagir ao novo governo e à proposta de reforma da previdência. “Há grande volume de novos parlamentares que representam novas forças políticas. Se isso reduz a previsibilidade, porém, pode embutir surpresas favoráveis à aprovação das reformas”, avalia Marta Sfredo, colunista de economia do Zero Hora. “O mais difícil, como já se observa, será encontrar o ponto de equilíbrio, entre a profundidade das mudanças necessárias e a capacidade de a população absorvê-las.”

Marta Sfredo – Crédito: JeffersonBotega

O editor de economia do Jornal do Comércio, Luiz Guimarães, lembra que o novo governo precisa ser ágil em conduzir as reformas. “Uma lógica velha e conhecida ensina que o governante eleito que não fizer as principais mudanças no primeiro ano terá grandes dificuldades para fazê-las nos anos seguintes.”

Guimarães reforça que Bolsonaro só conseguirá avançar em questões delicadas, como são as reformas previdenciária, tributária e política, se tiver “uma base de apoio sólida e uma equipe de assessores afinada”. São forças ainda desconhecidas. A equipe que o presidente eleito está formando é inexperiente na gestão executiva e o Congresso Nacional vai para a maior renovação da sua história depois das eleições de 2018.

O nome que ganha mais evidência nesse contexto é de Paulo Guedes, responsável pelo plano econômico do novo governo e futuro ministro da Economia. “O casamento funcionou na campanha, mas o divórcio poderá vir na sequência”, alerta Guimarães. “Guedes traz no DNA o gene da privatização, quer vender as maiores e melhores estatais, entre elas a Petrobras, algo que não combina com o nacionalismo do capitão Bolsonaro – militares defendem que as riquezas nacionais permaneçam em poder do Estado.” Essas forças devem se equilibrar para os projetos avancem.

Luiz Guimarães, editor de Economia do Jornal do Comércio
Foto Mariana Carlesso

Mercado da comunicação busca o fortalecimento pós-crise
A expectativa do empresariado brasileiro é, em geral, positiva. Os investimentos devem ser ampliados em 2019 em todos os segmentos econômicos. “Para o setor de comunicação, a solidez econômica representa a retomada da expansão da atividade econômica empresarial, com a necessidade de fortalecimento de suas marcas e consequente incremento do investimento publicitário”, descreve Cristiano Reis Lobato Flores, diretor-geral da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert)

Um dos fatores que alimenta a projeção otimista vem do próprio processo eleitoral e do combate às fake news. “No ano de 2018, verificamos que a sociedade em geral buscou nas emissoras de radiodifusão a informação certificada, apurada por jornalistas profissionais e ouvido o contraditório, além da opinião assinada”, destaca.

O mesmo se verifica nos meios de comunicação impressos e digitais. “Se considerarmos a leitura das informações jornalísticas no impresso e também nas plataformas digitais, sobretudo os celulares, a verdade é que nunca se leu tanto jornal”, argumenta o diretor-executivo da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Ricardo Pedrosa.

Para ele, a questão central é monetizar essa grande audiência. “Os jornais brasileiros estão perseguindo isso, investindo nessa direção, pois acreditamos que será possível construir uma audiência paga que valorize a qualidade indiscutível da informação jornalística.”

De acordo com o diretor-geral da Abert, a tendência é a de que em 2019 a percepção de valor da informação seja fortalecida, inclusive no meio publicitário: “ninguém pretende vincular sua marca a um conteúdo falso”.